O Milagre cristão (Abril de 1935) por Emile Besson
A divulgação do cristianismo no Império romano é um dos acontecimentos mais extraordinários da História. As viagens missionárias de São Paulo começaram no ano 38 para terminar-se em Roma no ano 64. Conduziram o apóstolo a Síria,a quase toda a Ásia Menor, a Grécia, a Chipre, a Creta, a Malta, por último a Roma. Teve que sofrer pela fé que apresentava ao mundo. A passagem da segunda epístola aos Corintios (XI, 23-33) onde enumera os mártires que sofreram estão todos na sua memória. No entanto, isto era ainda apenas repressão local e sem grande repercussão. Mas o colosso romano não devia demoraria a escurecer e a mobilizar todas as forças para extirpar a religião nova. É fácil compreender o seu estado de espírito. Dos cultos professados no Império, o único que era praticado universalmente era o dos imperadores, os quais encarnavam, no entender das nações, a potência romana. O culto dos deuses variava necessariamente de uma província ao outra; o imperador continuava a ser o mesmo por toda a parte e tinha sobre os outros deuses, a superioridade para vingar-se, sem atraso dos seus detratores. Também as cidades rivalizavam na bomba com a qual serviam este Deus. Recusar o culto ao imperador, era pôr-se em inimigo do Estado. Ora, os cristãos recusavam adorar o imperador, como recusavam servir os deuses. Levantaram contra eles o tradicionalismo e a razão de Estado. Foram lesados nos seus interesses materiais e morais pelas autoridades sempre apressadas a fazer o seu tribunal César qualquer- potente. Mas, cedo, teve-se recurso contra eles à métodos mais enérgicos. A partir do ano 64, Nero decretou uma perseguição geral que durou quatro anos e que reina sobretudo em Roma e nas províncias da Ásia Menor onde tivesse-se desenrolado o apóstolo São Paulo. Trinta anos atrasado, lá teve outra, mais curta mas terrível, sob Domiciano (94-96). A história das perseguições é conhecida noutro lugar e não temos a intenção de recordar-o. Queremos esboçar outra história, muito sugestiva, ela também, e que, até estes últimos meses, nunca foi escrita: a da luta intelectual do paganismo contra o cristianismo nascente. No fim de 1934 pareceu uma obra maior de interesse onde o Sr. Pedra de Labriolle, professor na Sorbonne, mostra que o mundo antigo não combateu a fé nova unicamente pelo ferro e o fogo, mas que gastou contra ela dos recursos de um pensamento por muito tempo, quebrando todas às sutilezas da dialética (25) o Sr. de Labriolle cita todos os escritores que combateram o cristianismo durante os seis primeiros séculos, e expõe a sua argumentação. Estes polemistas são numerosos. No entanto, quatro nomes dominam todos os outros: Celso no segundo século, Philostrates e Pórfiro no terceiro, o imperador Juliano no quarto.
A obra que o filósofo Celso dirigiu contra os cristãos é intitulada Discurso verdadeiro ou Palavra de Verdade. Data arredores do ano 178. é o primeiro inquérito exaustivo do qual o cristianismo foi objeto, do lado pagão. Conhecemo-lo apenas pela refutação que fez Origenes, setenta anos atrasado. Para Celso, o cristianismo é uma doutrina bárbara, absurda, elaborada por pessoas sem cultura em quem, de resto, recruta o gordo dos seus partidários. Os cristãos aditam de desprezar as leis, os costumes, a ciência; ora,o melhor da sua doutrina encontra-se em Platon, o seu ensino foi plagiado dos filósofos e os mistérios. A ideia de um Deus que encarna-se parece à Celso uma demência. Quanto aos milagres, são ou falsos ou relativos da magia. E nosso polemista surpreende-se que em nome de tais princípios os cristãos atacam a religião nacional, peça essencial do Estado! Aos seus olhos, o mártir não tem utilidade; os que sofrem-no estão, do resto, apenas malfeitores precisamente punidos.
posted by Antonio Carlos at Sábado, Setembro 17, 2005